A Seleção disputou sete amistosos antes da estréia e venceu todos, um deles contra a Inglaterra, 2 a 1 no Maracanã, com um gol que Tostão marcou nos acréscimos, sentado na pequena área. Foi a partir daí que João trocou o 4-3-3 pelo ousado 4-2-4, substituindo Dirceu Lopes por Edu, um ponta-esquerda especialista. Mas as “feras” seguiram sua trajetória invicta. O time obteve uma classificação tranqüila, com seis vitórias em seis jogos, a última delas de 1 a 0 sobre o Paraguai, no Maracanã, em jogo que estabeleceu o recorde oficial de público dos 54 anos de história do estádio: 183.341 pagantes. O gol foi de Pelé, aproveitando rebote do excelente goleiro Aguillera.

Sob o comando de João, a Seleção só perdeu uma vez – para a Argentina, em Porto Alegre – praticando um futebol ofensivo e de enorme qualidade técnico. Mas o forte temperamento do treinador, um tanto avesso a críticas, acabou determinando a sua saída. As dificuldades começaram em 3 de setembro de 1969, na última partida daquele ano, na qual a Seleção foi derrotada por 2 a 1 pelo Atlético-MG no Mineirão, e terminaram no empate de 1 a 1 em jogo-treino contra o Bangu, no Estádio de Moça Bonita, subúrbio carioca, em 14 de março de 1970. Quatro dias depois, João Saldanha deixou o cargo. Após tentar o ex-apoiador paulista Dino Sani, campeão mundial em 1958, e o carioca Oto Glória, que levara Portugal ao terceiro lugar na Copa de 1966, a CBD optou por Mário Jorge Lobo Zagallo, bi do Rio e da Taça Guanabara com o Botafogo em 1967-68. E aqui um parênteses. É uma tremenda injustiça insistir na tese de que a Seleção Brasileira que ganhou o tri foi inteiramente concebida por João. Seria absurdo, é evidente, tirar-lhe o mérito de ter levado o torcedor a resgatar a crença de que o tri seria possível. João teve também a preocupação de evitar que pudessem se repetir os erros de 1966, para que a Seleção não chegasse ao Mundial sem uma estrutura montada.

Zagallo teve o mérito de aparar as arestas da herança deixada pelo antecessor e a sabedoria de levar adiante as mudanças que se faziam necessárias para tornar o time mais competitivo. Os zagueiros Djalma Dias e Joel Camargo deram vagas a, respectivamente, Brito e Wilson Piazza. O lateral-esquerdo Rildo foi trocado por Everaldo. Piazza, que disputara as Eliminatórias como volante, sua posição de origem, recuou, abrindo espaço para Clodoaldo. E Edu foi sacado para a entrada de Rivelino, que passou a fazer o terceiro homem de meio-campo. Com João, o time seguia jogando no 4-2-4, um esquema já um tanto superado pelas seleções da Europa. Nove delas estariam no México, três no grupo do Brasil, e não seria interessante, concluiu Zagallo, enfrentá-las em desvantagem. Zagallo também encontraria problemas em sua trajetória, como no empate de 0 a 0 com a Bulgária no Morumbi, quando experimentou deixar Pelé no banco, dado que ainda defendia a tese, logo abandonada, de que o “Rei” e Tostão não podiam jogar juntos, por serem craques de características semelhantes.

A Seleção chegou ao México um mês antes do Mundial, para realizar um trabalho de adaptação à altitude, e deu importância especial ao preparo físico, certa a comissão técnica de que com fôlego de sobra a equipe, indiscutivelmente de alta qualidade, seria imbatível. Nas Eliminatórias, o time marcou 23 gols em seis jogos, contra a Colômbia, o Paraguai e a Venezuela. No Mundial provou definitivamente que Zagallo não era apenas cauteloso, como muitos ainda afirmam, marcando 19 vezes em seis partidas e enfrentando três ex-campeões mundiais, a Inglaterra, o Uruguai e a Itália. A conquista do tricampeonato é um capítulo mais do que especial na história da Seleção. Pelas seis vitórias – 4 a 1 na Tchecoslováquia, 1 a 0 naInglaterra, 3 a 2 na Romênia, 4 a 2 no Peru, 3 a 1 no Uruguai e 4 a 1 naItália – e por pelo menos quatro jogadas de efeito que fazem parte de qualquer enciclopédia que se proponha a contar a história do futebol, todas envolvendo Pelé.

São elas: a bola chutada do meio-campo que saiu raspando o travessão, enquanto o goleiro tcheco Viktor corria inútil e desesperadamente para detê-la; a antológica defesa do inglês Gordon Banks em cabeçada certeira no canto direito, após cruzamento de Jairzinho; o inédito drible de corpo que enganou Mazurkiewicz, seguido da conclusão que saiu caprichosamente pelo lado esquerdo da baliza defendida pelo uruguaio; e o toque de gênio, calculado com régua e compasso, para Carlos Alberto Torres marcar o quarto gol contra a Itália.
Fonte: CBF